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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Entre a cruz e a estrela de Davi: A memória judaica nas famílias de Sobral e Groaíras

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A investigação sobre possíveis vínculos judaicos na formação social de Sobral e de seu entorno foi amplamente debatida pelo historiador Padre João Mendes Lira, que associava práticas familiares, memórias locais e dinâmicas econômicas à presença de cristãos-novos oriundos de Portugal. Segundo essa leitura, parte da elite regional teria raízes em descendentes de judeus convertidos, muitos deles deslocados para o Brasil em razão das pressões inquisitoriais e das restrições impostas pela Coroa.

O conceito de “cristão-novo” refere-se aos judeus convertidos ao catolicismo — muitas vezes sob coerção — e a seus descendentes. Como explica Kaufman, tratava-se de indivíduos que buscavam escapar da morte, do confisco de bens ou do exílio (KAUFMAN, 2000). Ainda assim, continuavam sob suspeita, pois a ideologia da “pureza de sangue” estabelecia distinções rígidas entre cristãos-velhos e convertidos. Essa lógica excludente estruturou hierarquias sociais no mundo ibérico e foi transplantada para o espaço colonial.

No Ceará, especialmente na região do Acaraú, tais distinções emergiram em disputas políticas locais. Estudos recentes demonstram que a noção de limpeza de sangue funcionava como instrumento simbólico de poder, mobilizado conforme interesses específicos (ALMEIDA, 2021). Nesse sentido, as acusações de ascendência judaica podiam servir tanto como estigma quanto como arma retórica em conflitos entre lideranças.

A trajetória de José de Xerez Furna Uchôa ilustra esse cenário. Proprietário de terras e ocupante de cargos administrativos na ribeira do Acaraú, ele ascendeu socialmente por meio de patentes e vínculos com a administração colonial. Conforme analisa Oliveira, a concessão dessas honrarias integrava a estratégia de consolidação de uma elite local articulada ao poder régio (OLIVEIRA, 2015). Contudo, rivalidades levaram à denúncia de que Xerez possuía “sangue cristão-novo”, revelando como o imaginário inquisitorial permanecia ativo mesmo em áreas distantes dos grandes centros.

A Inquisição moderna, diferentemente da medieval, estruturava-se de modo permanente e burocratizado. Gorenstein observa que, para o Santo Ofício, a origem judaica frequentemente equivalia à culpa presumida, pois o judaísmo era entendido como marca transmitida pelo sangue (GORENSTEIN, 2011). Essa mentalidade repercutiu nas colônias, moldando percepções e reforçando mecanismos de exclusão.

A análise dessas trajetórias pode dialogar com as reflexões de Pierre Bourdieu acerca da memória e das narrativas sociais. Para o sociólogo, as biografias não seguem linearidade simples, mas são construídas por meio de disputas simbólicas e reinterpretações constantes (BOURDIEU, 1989; 2009). Assim, a identidade cristã assumida publicamente por certos descendentes de judeus pode ser compreendida como estratégia de inserção e sobrevivência em um campo social regulado por critérios de distinção.

No plano mais amplo da cultura judaica, a própria noção de continuidade histórica desafia classificações convencionais. Como sugerem Amós Oz e Fania Oz-Salzberger, os judeus constituem uma comunidade marcada pela transmissão de palavras, textos e memórias, mais do que por fronteiras fixas (OZ, 2015; OZ-SALZBERGER, 2015). Essa perspectiva ajuda a compreender como tradições podem subsistir mesmo sob repressão.

No caso de Groaíras, registros cartoriais indicam a atuação de Manoel Madeira de Matos, apontado por tradições locais como cristão-novo e ancestral de diversas famílias da região. Documentos genealógicos disponíveis em bases colaborativas também mencionam personagens ligados às primeiras ocupações do território (Geni, s.d.). A doação de terras e rebanhos para constituição do patrimônio religioso local — formalizada em 1884 — demonstra a integração dessas famílias às estruturas paroquiais e administrativas.

Desse modo, a presença de descendentes de cristãos-novos em Sobral e áreas vizinhas revela um processo complexo, no qual mobilidade, disputas de prestígio e adaptação cultural se entrelaçam. Longe de constituir narrativa linear, trata-se de um mosaico de experiências marcado por tensões, silêncios e estratégias simbólicas que ecoaram na formação histórica do Ceará.


Declaração de Originalidade

O presente artigo foi produzido a partir de pesquisa autoral, com base em fontes históricas, documentais e bibliográficas devidamente referenciadas e passou por verificação de similaridade textual com ferramentas profissionais de detecção de plágio. As fontes utilizadas estão devidamente citadas, respeitando direitos autorais e boas práticas editoriais.




Texto adaptado por Eugênio Pacelly Alves



Referências bibliográficas:

Manoel Carrasco e Silva. Disponível em: >(https://www.geni.com/people/Manoel-Carrasco-e-Silva/6000000013764109057)<. Acesso em 28 de outubro de 2024.

ALMEIDA, Nilton Melo. Cristãos-novos, seus descendentes e Inquisição no Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2021.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, Lisboa: Difel, 1989.

BOURDIEU, Pierre. O camponês e seu corpo. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 26, p. 83-92, 2006.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

GORENSTEIN, Lina. Ter origem judaica era sinônimo de culpa?. In: Revista de História da Biblioteca Nacional: Dossiê Inquisição. Ano 7, nº 73, outubro de 2011.

KAUFMAN, T. N. Passos Perdidos, História Recuperada. A presença judaica em Pernambuco. 4. Ed, Recife. Editora Bagaço, 2000.

OLIVEIRA, Adriana Santos de. Pecuária, agricultura, comércio: dinamização das relações econômicas no termo da vila de Sobral (1773-1799) – 2015. Publicado na dissertação de mestrado.

OZ, Amós, & OZ-SALZBERGER, Fania. Os judeus e as palavras. Trad. George Schlesinger. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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