Oferecimento da Rubble Assessoria de Investimentos
(Texto compartilhado no dia 03 de fevereiro de 2026 por José Tavares de Araújo Neto)
O assassinato de João Pessoa ocupa lugar singular na história política da Paraíba e na crise que envolveu a República Velha. Mais do que examinar apenas a autoria material do crime, é necessário observar como diferentes interpretações foram construídas depois do episódio e como a Revolta de Princesa passou, progressivamente, a ser relacionada à morte do presidente paraibano.
O debate permanece aberto. O texto publicado por José Tavares de Araújo Neto sustenta que houve uma mudança significativa entre as primeiras investigações e a interpretação posterior do caso, destacando a passagem de uma explicação centrada em motivações pessoais para outra baseada na hipótese de conspiração política (TAVARES NETO, 2026). Já o Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas, registra que o assassinato ocorreu por razões pessoais, embora tenha sido imediatamente aproveitado politicamente pela oposição ao governo federal (FGV, s.d.). (Blog do João Costa)
A questão, portanto, não se resume a perguntar quem matou João Pessoa. É preciso perguntar como o crime foi interpretado, quem produziu essas interpretações e quais interesses políticos foram associados a elas.
Neste artigo você também poderá se interessar por:
A pesquisa adota abordagem histórico-documental e historiográfica, confrontando fontes acadêmicas, institucionais e de divulgação histórica. Foram cotejados o estudo de Bruno Miguel Drude, a dissertação de Auricélia Maria da Silva, a monografia de Guilherme Alves Cavalcante, o Atlas Histórico da FGV, o artigo de José Tavares de Araújo Neto, o estudo de Rostand Medeiros e o trabalho de Márcia Almada e Rodrigo Bentes Monteiro.
O procedimento privilegia a comparação entre versões, procurando distinguir acontecimento, interpretação e representação. Drude (2017), por exemplo, relaciona a Revolta de Princesa às tensões entre federalismo, tributação, reforma administrativa e reação oligárquica, permitindo compreender o conflito para além de uma simples disputa pessoal. (PPGDC UFF)
A Revolta de Princesa surgiu em meio ao choque entre o governo estadual de João Pessoa e o poder político de José Pereira. O conflito possuía dimensões econômicas, administrativas e eleitorais. O Atlas da FGV registra que o movimento congregou a oposição paraibana ao governo estadual e contou com apoio do governo federal, demonstrando que Princesa já estava inserida em uma disputa política de alcance mais amplo (FGV, s.d.). (Atlas Histórico do Brasil)
Nesse ambiente, a morte de João Pessoa ganhou significado que ultrapassou o próprio crime. A narrativa apresentada por Tavares Neto (2026) sustenta que a investigação posterior deslocou o foco da autoria material para a existência de uma possível conspiração, fazendo da Revolta de Princesa uma peça importante dessa reconstrução política. (Blog do João Costa)
A documentação, entretanto, recomenda cautela. O Atlas da FGV afirma expressamente que o crime ocorreu por razões pessoais e que os dirigentes da Aliança Liberal utilizaram politicamente o assassinato para responsabilizar o governo federal. (Atlas Histórico do Brasil) Essa divergência é fundamental: ela demonstra que não se deve transformar uma interpretação historiográfica em certeza documental sem considerar as fontes concorrentes.
Cavalcante (2018) chama atenção justamente para esse problema ao analisar a produção historiográfica sobre João Pessoa e José Pereira. Seu estudo mostra a presença de representações maniqueístas, nas quais os personagens podem aparecer alternadamente como heróis ou vilões, conforme o lugar ocupado pelo autor diante do acontecimento. (DSpace)
Silva (2020) aprofunda essa discussão ao examinar como jornais diferentes construíram imagens distintas de José Pereira. Segundo a autora, A União e o Jornal do Commercio produziram representações divergentes do líder de Princesa, revelando que a informação jornalística também participava da disputa pela memória do conflito (SILVA, 2020).
O relato de Rostand Medeiros também contribui para a reconstrução do cenário sertanejo. O autor descreve a Revolta de Princesa como resultado de disputas políticas e econômicas entre lideranças regionais, destacando a força de José Pereira e a dimensão armada do movimento (MEDEIROS, 2015). (TOK de HISTÓRIA - ROSTAND MEDEIROS)
Já o artigo de Tavares Neto (2026) oferece uma interpretação diretamente voltada à relação entre o assassinato de João Pessoa e a posterior releitura da Revolta de Princesa. Seu valor está justamente em provocar uma pergunta incômoda: até que ponto uma ruptura política modifica a maneira como acontecimentos anteriores são explicados? (Blog do João Costa)
A análise das fontes permite compreender o assassinato de João Pessoa como acontecimento situado na interseção entre violência privada, conflito regional e crise política nacional. A relação entre o crime e a Revolta de Princesa não deve ser aceita nem descartada de maneira automática.
O ponto mais consistente da pesquisa está na existência de diferentes camadas interpretativas. Drude (2017) evidencia as tensões institucionais; Cavalcante (2018) questiona a escrita maniqueísta; Silva (2020) demonstra o peso das representações jornalísticas; a FGV apresenta uma interpretação que enfatiza as motivações pessoais do crime; e Tavares Neto (2026) chama atenção para a transformação política posterior da narrativa. (PPGDC UFF)
Assim, a Revolta de Princesa não deve ser vista apenas como pano de fundo do assassinato de João Pessoa. Ela constitui uma chave para compreender as disputas de poder, as representações políticas e os mecanismos pelos quais uma sociedade reorganiza sua memória depois de uma ruptura histórica.
Há uma pergunta que precisa permanecer aberta: quem ganhou quando a história do assassinato de João Pessoa passou a ser contada como parte de uma grande conspiração?
Não se trata de absolver personagens nem de fabricar culpados. O trabalho do historiador é mais difícil: separar aquilo que aconteceu daquilo que foi dito sobre o acontecimento.
A Revolta de Princesa já possuía existência política própria. Havia disputa pelo poder estadual, resistência de grupos locais, interesses econômicos, tensão tributária, confrontos armados e uma profunda divisão entre lideranças. Transformar posteriormente esse conflito em explicação automática para o assassinato pode simplificar uma realidade muito mais complexa.
Também seria inadequado fazer o movimento inverso e retirar completamente Princesa da crise nacional. As fontes demonstram que o conflito sertanejo estava conectado às disputas políticas que atravessavam a Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e o governo federal. (Atlas Histórico do Brasil)
Minha leitura, portanto, é que a verdadeira riqueza histórica está justamente na contradição. João Pessoa pode ser estudado como vítima de um crime de motivação pessoal e, simultaneamente, como personagem cuja morte adquiriu enorme utilidade política. Princesa pode ser compreendida como conflito regional e, ao mesmo tempo, como episódio incorporado à crise nacional.
É nesse espaço entre o fato e sua interpretação que a pesquisa histórica ganha força. A memória não é uma fotografia parada. Ela é construída, disputada e, muitas vezes, reconstruída quando o poder muda de mãos.
Notas de pesquisa
Blog do João Costa. Apresenta a tese da mudança interpretativa entre as investigações do assassinato de João Pessoa e relaciona essa transformação à incorporação da Revolta de Princesa à narrativa política posterior.
DRUDE. Analisa a Revolta de Princesa sob perspectiva jurídico-institucional, relacionando federalismo, tributação, reforma administrativa e reação oligárquica.
Atlas Histórico do Brasil. Reconstitui a crise política que envolveu João Pessoa, José Pereira, Princesa e a Revolução de 1930, apresentando também a interpretação de que o assassinato teve razões pessoais e posterior aproveitamento político.
SILVA. Estuda as representações construídas sobre José Pereira, especialmente por meio dos jornais A União e Jornal do Commercio, mostrando como diferentes veículos produziram imagens políticas divergentes do mesmo personagem.
DSpace. Examina a historiografia paraibana sobre João Pessoa e José Pereira e identifica a presença de construções maniqueístas na representação dos personagens.
TOK DE HISTÓRIA. Reconstitui aspectos políticos, econômicos e militares da Revolta de Princesa, oferecendo elementos para compreender a dimensão sertaneja do conflito.
Texto adaptado por Eugênio Pacelly Alves
Referências bibliográficas:
Atlas Histórico do Brasil. Disponível em: >(https://atlas.fgv.br/verbete/5458)<. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.
A REVOLTA DE PRINCESA – GUERRA NA CAATINGA. Disponível em: >(A REVOLTA DE PRINCESA – GUERRA NA CAATINGA)<. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.
CAVALCANTE, Guilherme Alves. Na história nem heróis nem vilões: analisando uma escrita maniqueista na historiografia paraibana sobre João Pessoa e José Pereira. 2018. 105 f. Monografia (Licenciatura em História), Universidade Federal de Campina Grande, João Pessoa, 2018. Disponível em: >(Na história nem heróis nem vilões: analisando uma escrita maniqueista na historiografia paraibana sobre João Pessoa e José Pereira )<. Acesso em 24 de janeiro de 2026.
DRUDE, Bruno Miguel. FEDERALISMO NA CONSTITUIÇÃO DE 1891: A REVOLTA DE PRINCESA GUERRA TRIBUTÁRIA, REFORMA ADMINISTRATIVA E A REAÇÃO OLIGÁRQUICA. 2017. 190 f. Dissertação (Pós Graduação em Direito Constitucional), Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2017. Disponível em: >(FEDERALISMO NA CONSTITUIÇÃO DE 1891: A REVOLTA DE PRINCESA GUERRA TRIBUTÁRIA, REFORMA ADMINISTRATIVA E A REAÇÃO OLIGÁRQUICA)<. Acesso em 24 de janeiro de 2026.
O Discurso e a Noticia: Manuscritos sobre a revolta de 1720 atribuídos a Pedro Miguel de Almeida, 3 o conde de Assumar. Disponível em: >(O Discurso e a Noticia: manuscritos sobre a revolta de 1720 atribuídos a Pedro Miguel de Almeida, 3 o conde de Assumar)<. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.
Revolta de Princesa: A reinterpretação do Assassinato de João Pessoa. Disponível em: >(Revolta de Princesa: a reinterpretação do Assassinato de João Pessoa)<. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.
SILVA, Auricélia Maria da. DE LOUCO E CANGACEIRO A VALENTE E DESTEMIDO: As representações sobre o coronel José Pereira na Guerra de Princesa (PB). 2020. 99 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Informação), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2020. Disponível em: >(DE LOUCO E CANGACEIRO A VALENTE E DESTEMIDO: As representações sobre o coronel José Pereira na Guerra de Princesa (PB))<. Acesso em 24 de janeiro de 2026.

