Nas sociedades modernas, os
mortos ocupam um papel ativo na formação de identidades coletivas e na
organização política dos vivos. Memórias funerárias, linhagens e narrativas
sobre antepassados estruturam pertencimentos e legitimam disputas simbólicas,
moldando aquilo que se entende como nação, família e tradição (Detienne, 2010).
Como observa a literatura antropológica, a relação entre vivos e mortos
ultrapassa o campo religioso, atravessando dimensões políticas, territoriais e
genealógicas (Verdery, 1999; Sanjurjo, 2013).
Nesse contexto, a memória dos
mortos não se limita à preservação de biografias completas. Muitas vezes, o que
se constrói é uma seleção narrativa baseada em episódios marcantes, frases
atribuídas ou mortes exemplares. A ideia europeia de herói, centrada na união
entre vida, palavra e ação, pressupõe uma biografia consistente (Cubitt &
Warren, 2000). Contudo, no sertão nordestino, há casos em que a centralidade da
morte — e não da vida — torna-se o eixo da individualização. Isso desloca o
foco da biografia para aquilo que alguns estudos chamam de “thanatografia”, ou
seja, a narrativa estruturada pela morte (Rassool, 2004; Marschall, 2008).
A história de Antônio da Costa
Araújo, conhecido como Totonho do Marmeleiro, ilustra esse fenômeno. Diferente
de heróis clássicos, sua relevância não deriva de feitos amplamente
documentados, mas da memória coletiva construída por descendentes e moradores
do sertão pernambucano. Nesse caso, a ausência de informações biográficas não
impede sua elevação à condição de ancestral simbólico; ao contrário, reforça
sua singularidade como tronco genealógico (Ferraz, Araújo & Araújo, 2015).
No meio rural, a noção de
biografia costuma ser breve e seletiva, muitas vezes condensada em relatos de
poucas páginas. Trabalhos historiográficos regionais, como os de Wilson (1974,
1978), demonstram que narrativas sertanejas privilegiam personagens cujas ações
moldam identidades familiares e regionais. Nessas tradições, metáforas vegetais
— tronco, ramos, seiva — expressam a ideia de sangue como elemento definidor de
pertencimento. Assim, genealogia e história se tornam praticamente sinônimos,
reforçando vínculos entre memória familiar e identidade coletiva.
A individualização de
antepassados também se relaciona à política local. Estudos sobre o sertão de
Pernambuco mostram que famílias estruturam sua presença pública a partir da
memória dos mortos, criando ciclos em que genealogia legitima candidaturas e,
simultaneamente, a política fortalece linhagens (Villela, 2009; 2015). Esse
processo envolve mecanismos de inclusão e exclusão: certos ancestrais são
celebrados, enquanto outros permanecem esquecidos, definindo quem pode
reivindicar pertencimento ou prestígio.
Entretanto, o caso de Totonho
apresenta uma variação relevante. Diferente de troncos familiares associados
diretamente à vida política, sua consolidação como ancestral ocorreu por meio
de rituais de memória, especialmente celebrações religiosas anuais no sertão. A
missa dedicada ao vaqueiro — iniciada com poucos participantes — transformou gradualmente
um personagem quase desconhecido em figura agregadora de descendentes
dispersos. Esse movimento demonstra como práticas comemorativas podem gerar
novas centralidades genealógicas, independentemente de cargos públicos ou
disputas eleitorais.
A trajetória memorial de Totonho
também revela como narrativas familiares se constroem por transmissão oral. A
redescoberta do personagem partiu de relatos de vaqueiros e parentes,
posteriormente ampliados por pesquisas genealógicas e publicações familiares. Com
o tempo, livros, encontros e celebrações passaram a reunir descendentes
espalhados por diversas regiões, reforçando a ideia de tronco comum e ampliando
a rede de pertencimento (Ferraz, Araújo & Araújo, 2015).
Nesse processo, a morte assume
função estruturante. A história atribuída ao vaqueiro — morto sozinho na
caatinga, acompanhado apenas de seu cavalo e cão — tornou-se o principal
elemento de sua notoriedade. A narrativa enfatiza abandono e resistência,
elementos que facilitam a identificação coletiva e a construção de memória
afetiva. Como destacam Cubitt e Warren (2000, apud Jones, 2007), reputações
heroicas podem emergir mesmo quando a documentação é escassa, desde que existam
valores exemplares associados à figura lembrada.
A celebração anual em sua homenagem
consolidou uma forma específica de memória sertaneja: a exaltação pública de
mortos não necessariamente vinculados a elites políticas. Esse tipo de ritual
atua como mecanismo de coesão familiar e reafirmação indenitária, articulando
religião, genealogia e história local. Ao mesmo tempo, demonstra que a
construção de famílias não depende apenas de laços biológicos, mas também de
práticas simbólicas que renovam continuamente a memória coletiva (Villela &
Marques, 2016).
Assim, a história de Totonho do
Marmeleiro evidencia uma dinâmica peculiar: a transformação de um ancestral
quase anônimo em tronco genealógico por meio da memória ritualizada. Nesse
caso, a força da narrativa não reside em feitos documentados, mas na capacidade
de mobilizar descendentes e reorganizar pertencimentos. O exemplo confirma que,
no sertão, a genealogia é menos um registro estático e mais um processo vivo,
no qual mortos e vivos se coproduzem continuamente como história, identidade e
família.
Declaração de Originalidade
O presente artigo foi produzido a partir de pesquisa autoral, com base em fontes históricas, documentais e bibliográficas devidamente referenciadas e passou por verificação de similaridade textual com ferramentas profissionais de detecção de plágio. As fontes utilizadas estão devidamente citadas, respeitando direitos autorais e boas práticas editoriais.
Texto adaptado por Patrício Holanda
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