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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Entre a história e a genealogia

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Nas sociedades modernas, os mortos ocupam um papel ativo na formação de identidades coletivas e na organização política dos vivos. Memórias funerárias, linhagens e narrativas sobre antepassados estruturam pertencimentos e legitimam disputas simbólicas, moldando aquilo que se entende como nação, família e tradição (Detienne, 2010). Como observa a literatura antropológica, a relação entre vivos e mortos ultrapassa o campo religioso, atravessando dimensões políticas, territoriais e genealógicas (Verdery, 1999; Sanjurjo, 2013).

Nesse contexto, a memória dos mortos não se limita à preservação de biografias completas. Muitas vezes, o que se constrói é uma seleção narrativa baseada em episódios marcantes, frases atribuídas ou mortes exemplares. A ideia europeia de herói, centrada na união entre vida, palavra e ação, pressupõe uma biografia consistente (Cubitt & Warren, 2000). Contudo, no sertão nordestino, há casos em que a centralidade da morte — e não da vida — torna-se o eixo da individualização. Isso desloca o foco da biografia para aquilo que alguns estudos chamam de “thanatografia”, ou seja, a narrativa estruturada pela morte (Rassool, 2004; Marschall, 2008).

A história de Antônio da Costa Araújo, conhecido como Totonho do Marmeleiro, ilustra esse fenômeno. Diferente de heróis clássicos, sua relevância não deriva de feitos amplamente documentados, mas da memória coletiva construída por descendentes e moradores do sertão pernambucano. Nesse caso, a ausência de informações biográficas não impede sua elevação à condição de ancestral simbólico; ao contrário, reforça sua singularidade como tronco genealógico (Ferraz, Araújo & Araújo, 2015).

No meio rural, a noção de biografia costuma ser breve e seletiva, muitas vezes condensada em relatos de poucas páginas. Trabalhos historiográficos regionais, como os de Wilson (1974, 1978), demonstram que narrativas sertanejas privilegiam personagens cujas ações moldam identidades familiares e regionais. Nessas tradições, metáforas vegetais — tronco, ramos, seiva — expressam a ideia de sangue como elemento definidor de pertencimento. Assim, genealogia e história se tornam praticamente sinônimos, reforçando vínculos entre memória familiar e identidade coletiva.

A individualização de antepassados também se relaciona à política local. Estudos sobre o sertão de Pernambuco mostram que famílias estruturam sua presença pública a partir da memória dos mortos, criando ciclos em que genealogia legitima candidaturas e, simultaneamente, a política fortalece linhagens (Villela, 2009; 2015). Esse processo envolve mecanismos de inclusão e exclusão: certos ancestrais são celebrados, enquanto outros permanecem esquecidos, definindo quem pode reivindicar pertencimento ou prestígio.

Entretanto, o caso de Totonho apresenta uma variação relevante. Diferente de troncos familiares associados diretamente à vida política, sua consolidação como ancestral ocorreu por meio de rituais de memória, especialmente celebrações religiosas anuais no sertão. A missa dedicada ao vaqueiro — iniciada com poucos participantes — transformou gradualmente um personagem quase desconhecido em figura agregadora de descendentes dispersos. Esse movimento demonstra como práticas comemorativas podem gerar novas centralidades genealógicas, independentemente de cargos públicos ou disputas eleitorais.

A trajetória memorial de Totonho também revela como narrativas familiares se constroem por transmissão oral. A redescoberta do personagem partiu de relatos de vaqueiros e parentes, posteriormente ampliados por pesquisas genealógicas e publicações familiares. Com o tempo, livros, encontros e celebrações passaram a reunir descendentes espalhados por diversas regiões, reforçando a ideia de tronco comum e ampliando a rede de pertencimento (Ferraz, Araújo & Araújo, 2015).

Nesse processo, a morte assume função estruturante. A história atribuída ao vaqueiro — morto sozinho na caatinga, acompanhado apenas de seu cavalo e cão — tornou-se o principal elemento de sua notoriedade. A narrativa enfatiza abandono e resistência, elementos que facilitam a identificação coletiva e a construção de memória afetiva. Como destacam Cubitt e Warren (2000, apud Jones, 2007), reputações heroicas podem emergir mesmo quando a documentação é escassa, desde que existam valores exemplares associados à figura lembrada.

A celebração anual em sua homenagem consolidou uma forma específica de memória sertaneja: a exaltação pública de mortos não necessariamente vinculados a elites políticas. Esse tipo de ritual atua como mecanismo de coesão familiar e reafirmação indenitária, articulando religião, genealogia e história local. Ao mesmo tempo, demonstra que a construção de famílias não depende apenas de laços biológicos, mas também de práticas simbólicas que renovam continuamente a memória coletiva (Villela & Marques, 2016).

Assim, a história de Totonho do Marmeleiro evidencia uma dinâmica peculiar: a transformação de um ancestral quase anônimo em tronco genealógico por meio da memória ritualizada. Nesse caso, a força da narrativa não reside em feitos documentados, mas na capacidade de mobilizar descendentes e reorganizar pertencimentos. O exemplo confirma que, no sertão, a genealogia é menos um registro estático e mais um processo vivo, no qual mortos e vivos se coproduzem continuamente como história, identidade e família.


Declaração de Originalidade

O presente artigo foi produzido a partir de pesquisa autoral, com base em fontes históricas, documentais e bibliográficas devidamente referenciadas e passou por verificação de similaridade textual com ferramentas profissionais de detecção de plágio. As fontes utilizadas estão devidamente citadas, respeitando direitos autorais e boas práticas editoriais.


 


Texto adaptado por Patrício Holanda


 

Referências bibliográficas:

Cubitt, Geoffrey & Warren, Allen. (2000). Heroic reputations and exemplary lives Manchester: Manchester University Press.

Detienne, Marcel. (2010). L’identité national, une enigme Paris: Gallimard.

Ferraz, Gilson; Araújo, Maria Amelia & Araújo, Magno. (2015). Antonio da Costa Araújo (Totonho do Marmeleiro). Sua história e seus descendentes Floresta: [s.n].

Marschall, Sabine. (2008). Pointing to the dead: victims, martyrs and public memory in South Africa. South African Historical Journal, 60/1.

Petrovic-Steger, Maja. (2011). Anathomizing conflict. In: Lambert, Helen & McDonald, Maarion (orgs.). Social bodies Oxford: Berghan Books.

Rassool, Ciraj. (2004). The individual, auto-biography and history in South Africa Tese de Doutorado. University of the Western Cape.

Sanjurjo, Liliana. (2013). Sangue, identidade e verdade: memórias sobre o passado ditatorial argentino Tese de Doutorado. PPGAS/Universidade Estadual de Campinas.

Verdery, Katherine. (1999). Political lives of dead bodies New York: Columbia University Press.

Villela, Jorge Mattar. (2015). Os vivos, os mortos e a política no Sertão de Pernambuco. Revista de História, 173.

Villela, Jorge Mattar. (2009). Família como grupo? Política como agrupamento?. Revista de Antropologia, 52/1.

Villela, Jorge Mattar. (2004). O povo em armas. Violência e política no sertão de Pernambuco Rio de Janeiro: Relume Dumará .

Villela, Jorge Mattar & Marques, Ana Claudia. (2016). Le sang et la politique. Anthropologica, 58/2.

Wilson, Luis. (1978). Roteiro de grandes e velhos sertanejos 3 v. Recife: Cepe.

Wilson, Luis. (1974). Vila Bela, os Pereiras e outras histórias Recife: Editora Universitária.

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