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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Morais, os Maranhão e as guerras políticas do sertão nordestino

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Uma busca pelo fora da lei José Caetano de Morais, liderada por Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, Coronel da Legião das Guardas Nacionais de Garanhuns, um conflito que se estendeu pelos sertões de Pernambuco, Alagoas, Bahia e Sergipe, no ano de 1851. 

De maneira sucinta, ressalto que essa busca pode ser compreendida à luz das contendas entre os lisos e cabeludos (conservadores e liberais) de Alagoas, que ocorreram na década de 1840 a 1850, guerras que se espalharam pelos sertões da capitania vizinha, Pernambuco. 

O mencionado bandoleiro, conhecido como o “último dos Morais”, era o filho homônimo do padre José Caetano de Morais, que era vigário e uma figura conservadora em Palmeira dos Índios, e foi assassinado em 1844, durante o auge dos conflitos entre lisos e cabeludos. O coronel Apolinário era irmão de Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Maranhão, o Barão de Atalaia, que era um líder do Partido Liberal em Alagoas e considerado um dos responsáveis pela morte do sacerdote. 

Os irmãos Lourenço e Apolinário, junto com toda a sua família, estabelecida nos sertões da Comarca de Garanhuns, foram alvo de vingança pelos filhos do padre Morais. Essa é a raiz da perseguição, que intensificou após um ataque realizado pelo bandoleiro José de Morais em agosto de 1850, na Fazenda Saloubre, onde moravam os pais, parentes e aliados do Barão de Atalaia.

No início, a informação mais significativa que eu possuía foi encontrada em Moreno Brandão. Em sua conhecida obra História de Alagôas, publicada em 1909, ele registrou que o local onde o bandido foi capturado e assassinado teria sido “ao pé de uma serra chamada Serra da Vacca”, em “um lugar ermo chamado Cipó de Leite” (Brandão, 1909:85). Antes do evento em Brasília, procurei localizar o lugar denominado Cipó de Leite tanto em mapas antigos quanto em mapas atuais, dentro da vasta região do sertão situada na margem direita do rio São Francisco. O local de fato existia e hoje é um pequeno povoado pertencente ao município de Pedro Alexandre, no nordeste da Bahia. Viajei até lá no dia 15 de abril de 2017, que foi um Sábado de Aleluia, e encontrei inúmeros bonecos de Judas pendurados em varas diante de casas rústicas ao longo da estrada que liga os municípios de Poço Redondo, em Sergipe, e Pedro Alexandre, na Bahia, margeando a Serra Negra. Tenho o hábito de buscar vestígios, ou ao menos a atmosfera, nos lugares que serviram de cenário para os acontecimentos que estudo, pois isso me inspira na escrita histórica.

Em Pedro Alexandre, fui acompanhado por Orlando Nascimento Carvalho (conhecido como Orlando de João de Ioiô), professor de Geografia e membro de uma família tradicional da região, com quem eu havia feito contato previamente em busca de informações e apoio. Ele era amigo do meu falecido padrasto. Meu padrasto, Alcino Alves Costa, pesquisador e escritor dedicado ao tema do Cangaço, mantinha boas relações com famílias daquela região, que foram intensamente perseguidas pelo bando de Lampião no início do século XX. Orlando havia me informado que não tinha conhecimento de nenhuma Serra da Vaca naquela área. Ainda assim, persistente, senti a necessidade de visitar o povoado e conversar com os moradores mais antigos, tentando extrair de suas memórias qualquer referência a um morro ou serra que tivesse recebido esse nome no passado ou no presente.

“O Cipó” é um povoamento antigo (assinalado nas rotas dos bandos de cangaceiros), situado na parte sudeste de Pedro Alexandre, próximo à margem direita do rio Sergipe. Chegamos até lá pela rodovia BA-305, um trecho de terra avermelhada e amarelada que sai da sede do município, passa pelo povoado e segue até a BR-235. Não obtive êxito e não encontrei a Serra da Vaca. Entre as pessoas confiáveis com quem conversei, incluindo dona Clotilde Benigna do Rosário (Tidinha), conhecida como guardiã da memória da comunidade, não houve qualquer indício da existência desse lugar nem de tradições que fizessem referência a outro bandido que não fosse Lampião e seus seguidores. Não fossem os vínculos sólidos que estabeleci no município de Pedro Alexandre e a oportunidade de compreender melhor a região da Serra Negra, a viagem teria sido um fracasso.

Os dias que se seguiram àquela jornada foram repletos de aflição. Não encontrei a Serra da Vaca, como tinha esperado. Assim, retornei às minhas anotações de pesquisa, tentando encontrar alguma pista ignorada. Fui levado, portanto, a ler o artigo "Os Morais: subsídios para sua história", do autor Tobias Medeiros, publicado em 1985 na Revista do Instituto Histórico Geográfico de Alagoas. No acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que na época eu presidia, encontrei aquela publicação, localizada no volume 39 da Revista do IHGAL, referente ao ano de 1984 e lançado em 1985. Tobias Medeiros, que havia coletado informações significativas sobre os irmãos Morais na tradição oral de Poço das Trincheiras, no sertão do Ipanema, em Alagoas, afirmava com certeza que “[...] o último dos Morais foi assassinado por um senhor chamado Apolinário, perto do Rio São Francisco” (Medeiros, 1985:145). Ele também me mencionou que a Serra da Vaca estava em Sergipe. Ulysses Lins de Albuquerque, em Um sertanejo e o sertão, de 1957, ao relatar episódios familiares associados ao seu bisavô materno Antônio de Siqueira, que tinha um grau de parentesco distante com o coronel Apolinário e era chefe político de Alagoa de Baixo (Sertânia), então pertencente ao município de Cimbres, também me indicou que o local da morte final do Morais teria sido em Sergipe (Albuquerque, 1957:113). Até aquele momento, eu tinha dado pouco valor à informação, por causa da narrativa confusa sobre os irmãos Morais apresentada pelo memorialista. No entanto, devido ao fracasso da pesquisa de campo em Cipó de Leite, não podia me permitir ignorar outras pistas, mesmo que não fossem as mais confiáveis. Então, utilizei o grande oráculo dos tempos atuais, o Google, e pesquisei as palavras-chave “Serra da Vaca”, “Rio São Francisco” e “Sergipe”. Para minha surpresa, os resultados da busca me levaram à Plataforma Lattes, no site do CNPq, onde encontrei uma referência ao trabalho de conclusão de curso Aspectos geológicos, petrográficos e geoquímicos do Stock Serra da Vaca, Sistema Orogênico Sergipano, realizado por Douglas Barreto de Oliveira, apresentado em 2016 no curso de Geologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). No começo de maio, ela entregou o desenho com a exata posição da serra mencionada, que, a uma curta distância de Pedro Alexandre, está situada ao sul do município próximo de Canindé do São Francisco, na região noroeste de Sergipe, nas proximidades do Povoado Capim Grosso, para ser mais exata.



Texto de Patrício Holanda



Referências bibliográficas:

ALBUQUERQUE, Ulysses Lins de. Um sertanejo e o sertão: memórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. 

BRANDÃO, Moreno. Historia de Alagôas. Penedo: J. Amorim, 1909. 

MEDEIROS, Tobias. Os Morais: subsídios para sua história. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Maceió: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, vol. 39/1984, p. 139-146, 1985. 

RAMOS, Graciliano. Lampião. Novidades. Maceió, n. 3, p. 3, 25 abr. 1931. In: _____. Cangaços. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 27-30. 

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