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Os
brasileiros constituem uma das populações mais diversas do planeta, resultado
de cinco séculos de interações entre diferentes etnias provenientes de três
continentes: colonizadores europeus, especialmente portugueses; africanos
trazidos como escravizados; e povos nativos americanos. Quando os portugueses
desembarcaram, há cerca de 500 anos, aproximadamente 2,5 milhões de indígenas
habitavam o território que hoje conhecemos como Brasil. A miscigenação entre portugueses e indígenas iniciou-se
rapidamente após a chegada dos primeiros colonizadores. As relações entre
homens europeus e mulheres indígenas tornaram-se frequentes e, posteriormente
(após 1755), passaram a ser incentivadas como estratégia para promover o
crescimento populacional e a ocupação do território.
As
populações indígenas sofreram um acentuado declínio demográfico em decorrência
de conflitos com os colonizadores europeus e da exposição a doenças para as
quais não possuíam imunidade. Atualmente, estima-se que existam aproximadamente 326.000
indígenas no Brasil, vivendo em terras demarcadas pelo governo federal.
Os
africanos começaram a ser trazidos para o Brasil a partir do século XVI, sendo
escravizados para trabalhar inicialmente nas plantações de cana-de-açúcar e,
posteriormente, em minas de ouro e diamantes, além das lavouras de café.
Registros históricos indicam que, entre 1551 e 1850 — período que antecede o
fim do tráfico transatlântico de escravizados —, cerca de 3,5 milhões de
africanos chegaram ao Brasil.
No que se
refere à imigração europeia, estima-se que aproximadamente 500.000 portugueses
tenham se estabelecido no país entre 1500 e 1808.
A partir desse período, com a abertura dos portos brasileiros às nações amigas,
o Brasil passou a receber um fluxo crescente de imigrantes de diversas regiões
do mundo. Portugal foi, de longe, a principal fonte de migrantes, seguido por
Itália, Espanha e Alemanha. No século XX, também chegaram ao país imigrantes
asiáticos, especialmente do Japão, além de grupos oriundos do Líbano e da
Síria. De acordo com Callegari-Jacques e Salzano (1999), entre 1500 e 1972, 58%
dos imigrantes que chegaram ao Brasil eram de origem europeia, 40% africana e
2% asiática.
Diante
desse contexto histórico, coloca-se a seguinte questão: qual foi a contribuição
desses diferentes grupos para a herança genética dos brasileiros
contemporâneos?
Diversos
estudos foram conduzidos nas últimas décadas com o objetivo de compreender a
formação genética da população brasileira não indígena (para uma revisão, ver
Salzano, 1997; Callegari-Jacques e Salzano, 1999; Dornelles et al., 1999;
Guerreiro et al., 1999). Essas investigações concentraram-se predominantemente
em amostras das regiões Norte e Sul do Brasil. Utilizando marcadores genéticos
clássicos, tais estudos demonstraram que todos os grupos analisados apresentam
algum grau de miscigenação, cuja intensidade varia conforme a região
considerada.
Mais
recentemente, determinadas amostras da população brasileira foram analisadas
com base no DNA mitocondrial (mt-DNA) e em polimorfismos do cromossomo Y (Batista dos Santos et al., 1999). As
investigações envolvendo mt-DNA revelaram que as contribuições indígenas e
africanas para as populações do Norte do Brasil são superiores às previamente
estimadas por meio de marcadores genéticos clássicos.
Nos
últimos dez anos, o mt-DNA tem sido amplamente estudado, desde os trabalhos
pioneiros de Vigilant (1990), Stoneking et al. (1991) e Vigilant et al. (1991).
A análise filogeográfica das linhagens de mt-DNA em populações de diferentes
regiões do mundo levou à identificação de haplogrupos específicos para
africanos, europeus e asiáticos/ameríndios. A
determinação do haplogrupo de uma linhagem específica de mt-DNA permite inferir
sua origem (sub)continental, possibilitando uma análise detalhada da
ancestralidade matrilinear em populações miscigenadas.
Neste
artigo, adotamos essa abordagem metodológica por meio do sequenciamento de uma
porção da região controle do mt-DNA e da investigação de sítios específicos de
RFLP, com o objetivo de compreender de forma mais precisa a magnitude das
contribuições genéticas matrilineares de europeus, africanos, indígenas e
asiáticos para o patrimônio genético dos brasileiros contemporâneos.
Referências bibliográficas:
Populações brasileiras. Disponível em: >(https://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Asalzano-1967-populacoes/Salzano%26FreireMaia_1967_PopulacoesBrasileiras.pdf)<. Acesso em 04 de março de 2025.
Variabilidade do gene da fibrose cística em duas populações ameríndias do sul do Brasil: análise da mutação ∆F508 e dos haplótipos KM19 e XV2C. Disponível em: >(https://www.jstor.org/stable/41466462)<. Acesso em 04 de março de 2025.


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